Mãe, Pai, Funções Materna e Paterna e a Origem da HomoTransFobia Internalizada

Apesar de todos os avanços científicos da Psicologia ocidental na compreensão da sexualidade humana, ainda persistem muitas dúvidas e confusões em relação a conceitos essenciais relativos à psique humana que, se fossem devidamente esclarecidos, auxiliariam no entendimento do comportamento sexual não heterossexual, ainda tão pouco aceito por nossa sociedade. Uma das principais confusões reside na diferença entre mãe e pai e função materna e paterna.

Quais são as principais diferenças para a Psicologia científica entre esses termos? Mãe e pai são papéis histórica e socialmente construídos que se apresentam ideologicamente bem definidos na sociedade capitalista, mesmo que na prática, às vezes, eles se confundam, especialmente com o surgimento das novas configurações familiares na contemporaneidade. À mãe, em geral, ainda cabe predominantemente o cuidado e educação dos filhos, bem como o cuidado com a casa e, atualmente, a divisão das despesas domésticas. Ao pai cabe o papel de provedor familiar e de quem impõe a ordem e o respeito. Já a noção de função materna vem da Psicanálise e indica que, para além da questão biológica da gestação e da questão social dos cuidados básicos de alimentação e proteção que uma mãe biológica deveria prestar ao filho, existe a questão do desejo inconsciente ou não de ser mãe, e, consequentemente, de ter ou não um filho, e a aceitação ou não da complexa posição materna, plena de questionamentos e dúvidas sobre o futuro do filho, infelizmente nem sempre presente em todas as gestações. Ou seja, ao exercer a função materna a mãe sustenta para o seu bebê um lugar ao mesmo tempo imaginário e simbólico no seu desejo, antecipando em seu bebê uma existência que ainda não está lá, mas que virá a se instalar justamente porque foi suposta. Assim, ao desempenhar a função materna a mãe escreve as primeiras marcas no corpo do bebê, as quais serão os alicerces do seu aparelho psíquico. O não cumprimento desta função vai gerar na criança uma série de consequências negativas, entre elas um permanente sentimento de rejeição.

Já a função paterna, assim como a materna, tem um papel central no desenvolvimento e estruturação do psiquismo da criança e na formação da personalidade do adulto. O exercício da função paterna pressupõe muito mais do que a simples presença de um pai biológico na relação com o bebê e ela está ou não presente anteriormente ao nascimento da criança através da fala e do desejo da mãe. Assim, ser pai e mãe vai além da paternidade e maternidade biológicas, demandando antes sentimentos e uma pré-disposição subjetiva para ocupar esses lugares, antes de tudo, desejantes e simbólicos.

Dessa forma, as funções materna e paterna vão além da mera ocupação dos papéis sociais de mãe e pai, podendo inclusive ser exercidos por uma mesma pessoa e independentemente do sexo ou gênero do pai ou mãe biológicos, ou ainda da pessoa que se ocupa dos cuidados da criança recém nascida. Isto é, essas funções se concretizam antes na fala dos pais como resultado do desejo ou não de ser mãe e pai, garantindo ao filho um lugar de desejo no mundo que abre caminhos para a plena aceitação e o amor a esse filho. 

Assim, no caso de pais separados, ausentes ou que faleçam, alguém precisa exercer essas funções simbólicas. No caso da materna, a de desejar, cuidar, elaborar questionamentos sobre o futuro do filho, e, no caso da paterna de romper a fusão da mãe com a criança, estabelecendo uma mediação entre o desejo da mãe e do filho, dando continuidade à proibição do incesto, condenado socialmente, e exercendo o papel do terceiro que interdita essa relação. A função paterna cumpre o papel da lei, do limite, essencial para que a criança respeite futuramente as regras de convivência social. Evidentemente que a presença física dos pais biológicos ou de seus substitutos exerce um papel importante e útil em nossa sociedade, porém ele pode ser perfeitamente desempenhado por uma única pessoa que exerce esses dois papéis e funções, ao realizar as tarefas ao mesmo tempo de desejar, aceitar, cuidar, proteger, estabelecer limites e educar, a partir do amor e do reconhecimento da alteridade do filho, ou seja, a partir do reconhecimento das suas diferenças. É o caso das denominadas “famílias monoparentais”, ou seja, das famílias que ocorrem quando apenas um dos pais de uma criança arca com as responsabilidades de criar o filho ou os filhos.

Tal fenômeno ocorre, por exemplo, quando o pai não reconhece o filho e abandona a mãe, quando um dos pais morre, ou quando os pais dissolvem a família pela separação ou divórcio. Normalmente, depois da separação do casal, os filhos ficam sob os cuidados da mãe, e mais raramente, do pai. Estudos recentes indicam que é perfeitamente viável que apenas uma mãe, ou pai, ou ainda outra pessoa que adote ou cuide da criança, independente do sexo ou do gênero, ocupe esses dois lugares sociais e exerça as funções materna e paterna, preservando a saúde mental da criança. Finalmente, qual a relação das funções materna e paterna com a homotransfobia internalizada da maior parte dos LGBT? 
 
A expressão homotransfobia indica a fobia, medo, aversão ou rejeição irracional a orientações sexuais e identidades de gênero não heterossexuais. É importante lembrar que, apesar da palavra destacar a homossexualidade e a transexualidade, engloba toda e qualquer orientação sexual e identidade de gênero não heterossexual. Uma criança LGBT ao nascer traz uma diferença ou marca inscrita no seu psiquismo que vai se manifestar mais cedo ou mais tarde, interrogando o “lugar” reservado para ela na mente de seus pais. Devido ao fato da maioria absoluta dos pais esperarem que seus filhos correspondam aos estereótipos de menino e menina, homem ou mulher, a partir do modelo heterossexual de masculino e feminino estabelecido social e culturalmente, vai ocorrer um choque no momento em que essa criança começa a manifestar um desejo e uma expressão de comportamento não heterossexual. 
 
Com a rejeição dos pais a sua diferença essencial, as crianças LGBT passam consciente ou inconscientemente a entender que a marca que lhes constitui é errada ou anormal. Essa é a origem da homolesbotransfobia internalizada, ou seja, a “tomada equivocada de consciência” por parte das crianças LGBT de que possuem algo de inadequado e de que, a partir de então, devem esconder, manter em segredo ou fazer de conta que não possuem essa diferença. Essa dupla rejeição da diferença essencial relacionada à orientação sexual do filho, por parte dos pais e da própria criança, vai impactar negativamente na formação da identidade de gênero e criar problemas de afirmação e ocupação de um lugar no mundo.

Através da abordagem afirmativa o psicólogo afirmativo vai ajudar o paciente LGBT a identificar e reconhecer a presença da homotransfobia internalizada para, a partir desse reconhecimento, auxiliá-lo a aceitar e integrar plenamente sua verdadeira orientação sexual, desconstruindo sua atual identidade de gênero que foi certamente reprimida e/ou deformada pelas pressões familiares e sociais de adaptação a identidades de gênero heterossexuais. 

Paulo Cogo é professor de Psicologia e Psicólogo Especialista em Psicologia Transpessoal pela UNIPAZ, atuando nas áreas clínica e organizacional, dentro do enfoque da Psicologia Afirmativa; Doutor e Mestre em Sociologia pela UFRGS 
 

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