João Silvério Trevisan lança seu livro Pai, pai; importante contribuição literária LGBT

Um dos mais importantes intelectuais da cena literária brasileira lançou seu novo livro no contexto LGBTI. João Silvério Trevisan, 73, publicou Pai, pai; através da editora Alfaguara. A obra discorre sobre seu pai, o italiano José, que faleceu em  1997 e deixou em suas memórias um legado de desaprovação de sua orientação sexual, além da postura imponente. 
 
Pai, pai é um espelho da vida de seu autor. Tanto ao retratar frustrações, quando alegrias ou momentos importantes, a obra traz uma análise íntima e profunda das convicções e memórias de Trevisan. Munido das memórias repletas de abusos psicológicos e físicos protagonizados pelo pai, o autor faz uma alusão ao trecho bíblico do livro de Mateus no qual Jesus, desfalecendo na cruz, clama ao seu pai: “pai, pai, por que me abandonaste?”. “A grande contradição do meu pai foi não conseguir responder às exigências do papel que lhe era determinado enquanto um macho típico. Ele teve que fazer uso do álcool para poder cumprir aparentemente essa função masculina estereotipada, a do macho durão”, contou Trevisan sobre o comportamento de seu pai e a dificuldade para expor sua homossexualidade. Por outro lado, o autor explica que o núcleo da obra não gira em torno apenas da dor e sofrimento, mas também o reconhecimento dos laços familiares com seu pai, apesar de todos os acontecimentos dolorosos. "Não existe produção literária sem que a pessoa toque nos seus próprios demônios", declarou ao site Huffpost Brasil. Para Trevisa, o livro girta em torno do perdão, do processo longo que é necessário enfrentar para se libertar de aflições causadas por intolerância, principalmente, acerca de sua sexualdiade. 
 
Muito crítico sobre o cenário social e político, o escritor considera que "os problemas da comunidade LGBT não são problemas só da comunidade LGBT. Eles são problemas de um país inteiro", conforme declarou ao Huffpost, numa demonstração de que a causa LGBT está cada vez mais abandonada por diversos setores da sociedade que fecham seus olhos para a negativa de direitos para essa população. Com seu livro, João deseja contribuir para a luta da comunidade LGBT. Com relaçã à cura gay, por exemplo, o autor acredita que “se as pessoas que acreditam na cura gay lerem meu livro, vão ter que repensar a questão. Elas vão perceber o massacre que eu vinha sofrendo.”. Trevisan entende que toda a questão conservadora que retira direitos e discrimina LGBT’s vem da inflexibilidade religiosa que acaba por condenar os indivíduos que fogem à regra estabelecida. As políticas públicas são cada vez mais perseguidas e banidas deviso à preceitos religiosos e, embora socialmente a comunidade gay esteja ocupando espaços com manifestações públicas como a parada LGBT, ainda não é possível enxergar medidas efetivas que cuidem da real inclusão, saúde, educação e proteção de LGBT’s. Basta olhar para o Congresso. Os problemas da comunidade homossexual continuam sendo colocados num compartimento. “'Vocês viados, lésbicas, travestis que se virem'. Na hora H, é isso o que acontece. Inclusive, não só neste governo reacionário.”, disse. 
 
João Silvério Trevisan traz em sua bagagem, de mais de 30 anos de literatura, três prêmios Jabuti, importante gratificação da literatura brasileira. O escritor ainda é um dos fundadores do primeiro grupo político LGBT, o Somos, fundado em meados dos anos de 1978, quando das primeiras manifestações pela igualdade sexual e de gênero. Antes disso, mas ainda nos anos de 1970, Trevisan esteve envolvido na criação do Lampião da Esquina, primeiro jornal LGBT.  Nascido no interior de São Paulo, na cidade de Ribeirão Bonito, João Silvério usa de toda sua caminhada e experiência enquanto escritor e ativista LGBT para analisar o atual cenário da sociedade com relação à população LGBT.
 
 

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