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Orações para Ryan: Mãe conta história real de filho gay morto em “Só por ele respirar”

Redação Lado A 26 de Março, 2014 16h17m

“Just Because He Breathes” é o emocionante blog criado por Linda Diane Robertson, mãe de Ryan Robertson, morto aos 18 anos de idade, em Seattle, Estados Unidos, em 2009. Em Janeiro deste ano ela postou no Facebook a história de sua vida, de uma mãe em dor. Assim como no filme “Orações para Bobby”, ela, uma fervorosa mãe cristã, não viu o destino trágico que se escrevia a sua frente quando rejeitava seu filho por ser homossexual. O texto narra, infelizmente, uma história que se repete mas que serve de alerta. Em 2013, os pais de Ryan contaram a história de seu filho na Conferência Mundial do Grupo Exodus, que por mais de 30 anos realizou a “cura gay” nos EUA e encerrou suas atividades em razão de casos como o de Ryan naquele evento.

Só por ele respirar (“Just Because He Breathes”)

Na noite de 20 de novembro de 2001, uma conversa realizada no MSN mudou nossas vidas para sempre. Nosso filho de 12 anos me mandou mensagens em meu escritório, a partir do computador em seu quarto.
 

Ryan diz: Eu posso te dizer uma coisa?
Linda diz: Sim, eu estou ouvindo
Ryan diz: Bem, eu não sei como dizer isso, mas realmente, bem…. , eu não posso continuar mentindo para você sobre mim. Eu tenho escondido isso por muito tempo e eu tenho que dizer tipo agora.  Então agora você provavelmente tem uma ideia do que eu vou contar.
Ryan diz: Eu sou gay
Ryan diz: eu não posso acreditar que eu acabei de dizer
Linda diz: Você está brincando?
Ryan diz : não
Ryan diz: eu pensei que você iria entender por causa do tio Don
Linda diz: é claro que eu entenderia
Linda diz: mas o que faz você pensar que é?
Ryan diz: eu sei que eu sou
Ryan diz: eu não gosto de Hannah
Ryan diz : é apenas pra despistar
Linda diz: mas isso não faz de você gay …
Ryan diz: eu sei
Ryan diz: mas tu não entende
Ryan diz : eu sou gay
Linda diz: Me conta mais
Ryan diz : é apenas a maneira que eu sou e isso é algo que eu sei
Ryan diz: Você não é lésbica e vc sabe disso. Então, é a mesma coisa
Linda diz: o que você quer dizer?
Ryan diz : apenas que eu sou gay
Ryan diz: EU SOU 
Linda diz: Eu te amo não importa o que
Ryan diz: eu não sou preto, sou branco
Ryan diz: eu sei
Ryan diz: eu sou um menino. não uma menina
Ryan diz: Eu se sinto atraído por meninos, e não meninas
Ryan diz: A gente sabe que sobre e eu sei isso
Linda diz: E você sabe sobre o que Deus desses desejos?
Ryan diz: eu sei
Linda diz: obrigado por me dizer
Ryan diz: e eu estou muito confuso sobre isso agora
Linda diz: Eu te amo mais ainda por ser honesto
Ryan diz: eu sei
Ryan diz: obrigado
 
Estávamos completamente chocados. Não que nós não conhecemos e amamos os homossexuais – o meu único irmão tinha saído do armário vários anos antes e eu o adorava. Mas Ryan? Ele não tinha medo de nada, era valente, era todo machinho. Não tínhamos visto isso chegando, e a emoção que foi nos dominando, nos manteve acordado durante a noite e, infelizmente, influenciou todas as nossas reações ao longo dos próximos seis anos foi o medo.

Nós dissemos todas as coisas que nós pensávamos que pais cristãos que amam os filhos e acreditavam na Bíblia – A Palavra de Deus – deveriam dizer:

Nós te amamos . Nós sempre vamos te amar. E isso é difícil. Muito difícil. Mas nós sabemos o que Deus diz sobre isso, e assim você vai ter que fazer algumas escolhas muito difíceis.

Nós te amamos . Nós não poderíamos te amar mais. Mas há outros homens que enfrentaram esta mesma luta e Deus trabalhou para mudar seus desejos. Nós vamos te dar os livros deles… você pode ouvir os testemunhos deles. Nós vamos confiar em Deus com isso.

Nós te amamos. Somos tão feliz que você é nosso filho. Mas você é jovem, e sua orientação sexual ainda está em desenvolvimento. Os sentimentos que você teve por outros meninos não fazem de você gay. Então por favor, não conte a ninguém que você é gay. Você não sabe quem você é ainda. Sua identidade não é que você é gay – e sim que você é um filho de Deus.

Nós te amamos. Nada vai mudar isso. Mas se você vai seguir Jesus , a santidade é a sua única opção. Você vai ter que optar por seguir Jesus, não importa o quê. E uma vez que você sabe o que a Bíblia diz, e já que você quer seguir a Deus, abraçar a sua sexualidade não é uma opção.

Pensávamos que compreendíamos a magnitude do sacrifício que nós – e Deus – estavamos pedindo. E este sacrifício, nós sabíamos, levaria a uma vida abundante, perfeita, em paz e com recompensas eternas. Ryan sempre se sentiu intensamente atraído por assuntos espirituais. Ele desejava agradar a Deus acima de tudo. Assim, durante os primeiros seis anos, ele tentou escolher Jesus. Como tantos outros antes dele, ele implorou a Deus para ajudá-lo a se sentir atraído para as meninas. Ele memorizou as escrituras, se reunia em seu programa pastoral semanal de jovens, participava entusiasticamente em todos os eventos do grupo de jovens da igreja e Estudos Bíblicos e foi batizado. Ele leu todos os livros que afirmavam saber de onde seus sentimentos homossexuais vinham, mergulhou em aconselhamentos para descobrir ainda mais sobre os “porquês” de sua atração indesejada por outros meninos, trabalhou através de dolorosas atividades de resolução do conflito com meu marido e eu, e construiu amizades sólidas com outros caras – héteros – assim como os especialistas de terapia reparativa aconselhavam.

Ele mesmo saiu do armário para todo seu grupo de jovens, dando o seu testemunho de como Deus o havia resgatado das armadilhas do inimigo, e repetia – de memória – verso após verso que Deus usou para chamar a Ryan a ser ele mesmo.

Mas nada mudou. Deus não respondeu a sua oração – ou a nossa – apesar de crermos com fé que o Deus do Universo – o Deus para quem nada é impossível – poderia facilmente fazer Ryan hétero. Mas Ele não o fez.

Embora em nossos corações pode ter sido algo bondoso (nós realmente pensávamos que o que nós estávamos fazendo era amor), nós nem sequer demos a Ryan a chance de lutar com Deus, para descobrir o que ele acreditava que Deus estava dizendo para ele por meio das escrituras, sobre sua sexualidade. Tínhamos acreditado firmemente em dar para cada um de nossos quatro filhos o espaço para questionar o cristianismo, de decidir por si mesmos se eles queriam seguir Jesus, para realmente eles pudessem ser donos de sua própria fé. Mas estávamos com muito medo de dar a Ryan, quando ele saiu do armário, por medo que ele fizesse a escolha errada.

Basicamente, nós dissemos a nosso filho que ele tinha que escolher entre Jesus e sua sexualidade. Nós o obrigamos a fazer uma escolha entre Deus e ser uma pessoa sexuada. Escolhendo Deus, praticamente significava viver uma vida condenada a solidão. Ele nunca teria a chance de se apaixonar, ter seu primeiro beijo, andar de mãos dadas, compartilhar a sua intimidade e companheirismo ou a experiência de um romance.

E assim, pouco antes de seu aniversário de 18 anos, Ryan, deprimido, suicida, desiludido e convencido de que ele nunca seria capaz de ser amado por Deus, fez uma nova escolha. Ele decidiu jogar fora sua Bíblia e sua fé, ao mesmo tempo, e tentar procurar o que ele queria desesperadamente: paz, de uma outra maneira . E a maneira que ele escolheu primeiro foram as drogas.

Nós ensinamos – involuntariamente – Ryan a odiar sua sexualidade. E uma vez que a sexualidade não pode ser separada do self, tínhamos ensinado Ryan odiar a si mesmo. Então, quando ele começou a usar drogas, ele o fez com uma imprudência e falta de cuidado por sua própria segurança que foi alarmante para todos que o conheciam.

De repente, o nosso medo de Ryan um dia ter um namorado (uma possibilidade que honestamente me aterrorizava ) parecia trivial em contraste com o nosso medo da morte de Ryan, especialmente à luz da sua recente rejeição do cristianismo e sua raiva por Deus.

Ryan começou com maconha e cerveja… mas rapidamente em seis meses usava cocaína, crack e heroína. Ele era viciado desde o início, e sua auto aversão e raiva contra Deus só alimentou seu vício . Pouco depois, perdemos contato com ele. No próximo ano e meio não saberíamos onde ele estava, ou mesmo se ele estava vivo ou morto. E durante esse tempo foi horrível e Deus teve a nossa atenção. Paramos de orar para que Ryan se tornasse hétero e começamos a orar para ele saber que Deus o amava. Paramos de rezar para ele nunca ter um namorado e começamos a rezar para que um dia pudesse vir a conhecer e ter um namorado. Nós até deixamos de orar por ele para voltar para casa, nós só queríamos que ele voltasse para Deus.

No momento em que o nosso filho nos ligou, depois de 18 longos meses de silêncio, Deus tinha mudado completamente a nossa perspectiva. Porque Ryan tinha feito algumas coisas bem terríveis  enquanto usava drogas , a primeira coisa que ele me perguntou foi:

Você acha que você pode me perdoar? (Eu disse a ele: claro, já foi perdoado. Ele sempre tinha sido perdoado.)

Você acha que você poderia me amar de novo? (Eu disse a ele que nunca tinha deixado de amá-lo, nem por um segundo. Nós amamos ele, então, mais do que nunca.)

Você acha que você poderia me amar com um namorado? (Chorando, eu disse a ele que poderia amá-lo com quinze namorados. Nós só queríamos de volta em nossas vidas. Nós só queria ter um relacionamento com ele de novo… E com o seu namorado.)

E uma nova jornada começou . Uma de cura, restauração, comunicação aberta e de graça. Muita graça . E Deus estava presente em cada passo do caminho, nos levando e guiando, gentilmente, lembrando-nos simplesmente de amar o nosso filho e deixar o resto para ele.

Ao longo dos próximos 10 meses aprendemos a amar verdadeiramente o nosso filho. Ponto. Nada de “poréns”. Não havia condicionantes. Só porque ele respirava. Aprendemos a amar quem quer que nosso filho amasse. E foi fácil . O que eu tinha tanto medo de se tornou uma benção. A viagem não foi sem erros, mas tivemos a graça para o outro, e a linguagem da desculpa e do perdão tornou-se uma parte natural do nosso relacionamento. Com nosso filho perseguido a recuperação de drogas e álcool, nós o seguimos. Deus nos ensinou a amá-lo, para nos alegrarmos com ele, e para ter orgulho do homem que ele estava se tornando. Estávamos todos nos curando… e o mais importante, Ryan começou a pensar que se poderíamos perdoá-lo e amá-lo, então talvez Deus pudesse também.

E então Ryan cometeu o erro clássico de um viciado em recuperação … ele voltou a andar com seus velhos amigos … seus amigos usuários. E uma noite que era para ser apenas uma noite de filmes, acabou por ser a primeira vez que ele sumiu em dez meses … e pela última vez. Recebemos um telefonema de uma assistente social do Harborview Medical Center, em Seattle, nos pedindo para vir identificar o nosso filho – que tinha chegado lá em coma, em estado crítico. Passamos 17 dias em Harborview, durante o qual toda a nossa família foi capaz de se envolver e amar Ryan. Nós experimentamos milagre após milagre, durante esse tempo , as coisas que nenhum médico tinha qualquer explicação. A presença de Deus era tangível no quarto de Ryan. Mas isso é uma história longa, sagrada, que eu vou ter que dizer em uma outra vez.

Embora Ryan tivesse sofrido tal dano cerebral grave e teve paralisia quase completa, os médicos disseram-nos que ele poderia muito bem sobreviver. Mas, inesperadamente, Ryan morreu em 16 de julho de 2009. E perdemos a capacidade de amar o nosso filho gay… porque já não tínhamos mais um filho gay. O que tínhamos desejado… orado por… esperávamos… que nós não tivéssemos um filho gay, se tornou realidade. Mas não da maneira que costumávamos imaginar.

Agora, quando eu penso no medo que regeu todas as minhas reações durante os primeiros 6 anos após Ryan nos ter dito que ele era gay, eu me encolho quando eu percebo o quão tola eu fui. Eu estava com medo de todas as coisas de forma errada. E eu estou em luto, não só pelo meu filho mais velho, que eu vou perder por todos os dias para o resto da minha vida, mas pelos erros que eu fiz. Sofro por aquilo que poderia ter sido, se tivéssemos andado pela fé e não pelo medo. Agora, sempre que Rob e eu juntamos nossos amigos gays para uma noite, eu penso sobre o quanto eu gostaria de estar visitando com Ryan e seu parceiro para um jantar. Mas, em vez disso, visitamos o túmulo de Ryan. Celebramos aniversários: os aniversários que ele poderia ter sido e os aniversários do dia inesquecível de sua morte. Nós usamos laranja – a cor dele. Nós acumulamos memórias: fotos, roupas que ele usou, manuscritos, listas de coisas que ele amava, memórias de suas paixões, lembranças de canções engraçadas que ele inventou, qualquer coisa, que realmente nos lembra de nosso belo menino… é isso tudo o que nos resta e não haverá novas memórias. Nos realegramos com nossos filhos adultos, em nossa família que cresce, quando eles se casam … mas sentimos dor  pelo nosso “quarteto” que está em falta. Marcamos nossa vida com os dias AC (antes do coma) e DM ( depois da morte) , porque nós somos pessoas diferentes agora, nossa vida foi mudado irrevogavelmente – em um milhão de maneiras – por sua morte. Valorizamos amizades com outras pessoas que “entram”… Porque eles também perderam um filho.

Nós choramos. Buscamos Céu pela graça e misericórdia e redenção enquanto tentamos – não para ficarmos melhor, mas para sermos melhores. E oramos para que Deus possa de alguma forma usar a nossa história para ajudar outros pais a aprenderem a amar verdadeiramente seus filhos. Só porque eles respiram.

Linda Diane Robertson

Texto publicado originalmente no Facebook em 14 de janeiro de 2013 (Aniversário de 24 anos de Ryan)

Tradução Livre Revista Lado A – Allan Johan

CONFIRA O VÍDEO QUE A FAMÍLIA FEZ EM HOMENAGEM AO RYAN:

Just because he breathes… from theCollaborate on Vimeo.

 

 
 
 

Redação Lado A

SOBRE O AUTOR

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A Revista Lado A é a mais antiga revista impressa voltada ao público LGBT do Brasil, foi fundada em Curitiba, em 2005, pelo jornalista Allan Johan e venceu diversos prêmios. Curta nossa página no Facebook: http://www.fb.com/revistaladoa

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