#EleNão #EleNunca Sobre aquele que não se deve dizer o nome

Allan Johan 20 de Setembro, 2018 01h55m

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Acabei de medir a minha pressão. Tenho 38 anos e há pelo menos três meses estou com pressão alta. Minha pressão sempre foi 12×8 mas agora vem batendo 16×11 várias vezes ao longo do dia, mesmo tomando medicamento. Atribuo isso à ameaça que estamos vivendo, de talvez termos um facista como presidente. Sim, estou em pânico. #EleNão #EleNunca

Mais triste ainda é ver alguns amigos e conhecidos que apoiam aquele que não devemos dizer o nome. Digo sim: Bolsonaro. A personificação de tudo que lutei contra em toda a minha vida. Uma pessoa que representa, para mim, o discurso violento e preconceituoso que por toda a minha vida eu combati. Até mesmo dentro de casa.

Meu pai disse que votaria nele, por fim agora disse que não vai mais votar porque tem mais de 70 anos e não precisa. Meu pai, que eu amo muito, disse no passado muitas das frases que Bolsonaro reproduziu por aí. Meu pai acredita em quase tudo que o “coiso” defende. Inclusive o discurso machista, racista, homofóbico, mas que com o tempo ele abandonou, do qual me lembro que na minha infância era latente. A vida o reservou um filho homossexual para que juntos aprendêssemos. E o meu aprendizado veio com muita dor, que eu revivo a cada vez que vejo, ouço ou cogito a vitória de Bolsonaro. Não quero que outros passem o que eu passei. jamais.

Estou somatizando tudo isso. Antes que digam que é mimimi, gostaria de lembrar que os Direitos Humanos, área em que atuo, surgiram no final da Segunda Guerra, uma resposta ao nazismo e ao facismo. Acredito que todos somos iguais em deveres e direitos. Sei que cada pessoa que vota no “inominável” quer de alguma forma garantir privilégios. São aqueles que não são felizes de alguma forma e não conseguem admitir que a mulher, o negro, o gay, a travesti e a transexual, o pobre, o sem estudos tenham os mesmos direitos e se quer sejam colocados no mesmo grau de humanidade.

Sobre a defesa de todos termos armas, armar a população, posso contar por experiência própria que é uma péssima ideia. Já apontei uma arma para a minha irmã em uma briga. Já tive a arma apontada para mim por ser gay. Tudo isso dentro de casa, com a arma que meu pai “cidadão de bem” e defensor da família tem porte. Por pouco não houve uma tragédia.

E a sensação não é apenas minha. Vejo diversos amigos sintomatizando tudo isso. A sensação é que a violência aumentou, que as pessoas se sentem no direto de “fazer justiça” e discursar contra as minorias. Os números de suicídios e LGBTfobia batendo recordes. A sensação é que nossos direitos sofrerão retrocessos.

E muitos se calam. A CFB não se manifestou sobre as cantigas de mortes aos “veados” feito por torcedores apoiadores de Bolsonaro, em Belo Horizonte. A “cantora” Anitta negou-se a se posicionar na maior campanha feminina do país, a #elenão ou #elenunca. Uma comunidade de 2.5 milhões mulheres contra Bolsonaro foi hackeada e as pessoas agem como se isso fosse brincadeira.

Não é brincadeira. A piada ficou séria. Quem duvida do que a homofobia é capaz olhe a nossa história. Ou melhor, olhe as palavras do candidato que já disse absurdos. Não é brincadeira. Bolsonaro está hospitalizado por conta de uma facada, certamente de uma pessoa que se sentiu ameaçada, por seu discurso carregado de ódio.

A democracia tem esses riscos, mas não podemos parar de lutar, seja qual for o resultado das urnas. Precisamos nos unir, antes que nos seja tarde.

 

Allan Johan

SOBRE O AUTOR

Allan Johan

O jornalista Allan Johan é fundador da Revista Lado A, voluntário do Grupo Dignidade e atualmente é Coordenador de Diversidade Sexual da Prefeitura Municipal de Curitiba.

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