Médica Júlia Rocha indica intelectuais negros e gays para tratamento de paciente com depressão

Redação Lado A 14 de Fevereiro, 2019 11h15m

Uma médica da rede pública de saúde de Minas Gerais “receitou” medicamentos inusitados para seu paciente negro e gay. A doutora Júlia Rocha atendia ao paciente que tem depressão e receitava para ele medicamentos a cada quinze dias. Dessa vez, a médica entendeu que um das causas da doença do paciente de 22 anos era o preconceito social. Por isso, ela receitou referências que, como ele, são negros e gays.

O jovem é filho de uma família evangélica e conservadora. Devido à depressão, chegou a ficar internado após sofrer algumas crises. Além disso, o rapaz tentou tirar a própria vida tomando remédios em excesso. Há alguns meses, o jovem passa por tratamento na rede pública e teve a sorte de encontrar uma profissional com muita humanidade.

Júlia orientou que seu paciente pesquisasse sobre negros influenciadores como Evaristo, Juliana Borges, Conceição, Djamila Ribeiro, AD Junior e o ator Spartakus Santiago, que é gay. Para a médica Júlia Rocha, que também é negra e conhece bem os obstáculos do racismo estrutural, a medida é uma forma de despertar no paciente a sensação de pertencimento e representatividade.

Além dos vídeos e postagens dos influencers negros, Júlia receitou o livro “O que é racismo estrutural”, de Silvio Almeida. Conforme relatou a médica, seu paciente ainda vivia se culpando por não conseguir “consertar” a sua sexualidade. Como acontece com outros milhares de LGBTs, esse quadro gerou depressão e quase levou o jovem a morte.

Resultados

Após a “receita” de Júlia, seu paciente apresentou ótimos resultados. Nas consultas seguintes, o jovem relatou estar se sentindo bem melhor. O rapaz contou ainda que tinha começado a namorar, mesmo com os obstáculos que enfrentava para se relacionar devido ao depressão. A médica contou que seu paciente ainda indicou a receita da doutora para outros conhecidos que enfrentavam a depressão.

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ILUMINADO Há cerca de 15 dias fiz essa prescrição para um paciente muito querido. Um jovem negro de 22 anos, evangélico, gay, trabalhador. Gravemente deprimido, há cerca de 2 meses tentou se matar usando os remédios do pai. Ficou internado em estado grave! Carregava consigo uma enorme culpa por, segundo ele, não conseguir “corrigir sua sexualidade” e seu afeto. Ele já estava em acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Já estava usando medicações. A família já estava mobilizada para apoiá-lo mas pra mim ele precisava se aprofundar no entendimento do seu lugar social como um homem gay, negro e periférico. Tem horas que só enxergando e conhecendo as estruturas que nos oprimem pra conseguir dar o próximo passo. Pedi para que ele buscasse pelo Spartakus Santiago, pelo AD Júnior, dois jovens negros e gays que compartilham suas vivências e aprendizados nas redes sociais. Indiquei acompanhar intelectuais negras: Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro e Juliana Borges. Prescrevi a leitura do livro ‘O que é racismo estrutural’ do Silvio Almeida. Falamos de intolerância, de espiritualidade, de afeto… Entreguei esta receita impregnada de um desejo imenso de vê-lo melhor. Hoje eu o encontrei no corredor. Ele sorriu e me deu um longo abraço. Aquele instante durou uns anos. “Tudo bem?” “Estou melhor. Bem melhor…. Li o livro…. passei a receita pra outros amigos….” “Que bom!” “Quero marcar meu retorno com você.” “Alguma novidade?” E ele se aproximou pra falar o segredo: “Tô namorando.”

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SOBRE O AUTOR

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A Revista Lado A é a mais antiga revista impressa voltada ao público LGBT do Brasil, foi fundada em Curitiba, em 2005, pelo jornalista Allan Johan e venceu diversos prêmios. Curta nossa página no Facebook: http://www.fb.com/revistaladoa

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